O Poder da Empatia Voltar

O Poder da Empatia

A arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo

(Empathy: A Handbook for Revolution)

Roman Krznaric 

 

A empatia tem o poder de revolucionar as relações humanas

 Nunca se falou tanto em empatia. Considerando-a como “a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações”, ela potencializa amplamente a mudança social.

Somos egoístas e individualistas, como fizeram crer, por exemplo, Freud e Hobbes. Mas não somos apenas isso. É o que neurocientistas, biólogos e psicólogos vêm tentando provar nos últimos anos. Somos também Homo empathicus: nosso cérebro está equipado com “circuitos da empatia, prontos para serem ativados.

Em uma sociedade como a nossa, que passa por um momento de déficit de empatia, excesso de narcisismo e individualismo, faz-se mais do que necessário sair de nosso próprio ego para nos conectar verdadeiramente com outros seres humanos. Diante desse cenário, é preciso entender como somos capazes de aumentar nosso potencial empático, que independe da idade. Pessoas altamente empáticas costumam apresentar seis hábitos:

1. Acionam seu cérebro empático

2. Dão o salto imaginativo

3. Buscam aventuras experienciais

4. Praticam a arte da conversação

5. Viajam em sua poltrona

6. Inspiram uma revolução

 

Hábito 1 – Acionar o cérebro empático

A capacidade de empatizar faz parte de nossa herança genética e pode aumentar ao longo da vida. Fato é que todo ser humano possui um potencial empático latente, à espera de um estímulo. Nesse sentido, a descoberta dos neurônios-espelho foi de suma importância.

“Trata-se de neurônios que são ativados tanto quando estamos experimentando algo (como dor) como quando vemos outra pessoa passando pela mesma experiência.” Além disso, é muito provável que os neurônios-espelho façam parte de um “circuito da empatia”, algo muito mais complexo, envolvendo diversas regiões do cérebro.

As pesquisas revelam que educar para a empatia ajuda no bem-estar das crianças e promove inteligência emocional; pode, inclusive, ajudar a solucionar conflitos nos mais diferentes contextos, como na família, na escola e nas empresas. Porém, como a maioria de nós não aprendeu sobre empatia na infância, podemos buscar outras formas de expandi-la. É preciso adotar o hábito de acionar o cérebro empático: dar aos nossos circuitos empáticos a chance de vir à tona. Registrar mentalmente as vezes em que entramos em contato com pensamentos ou ações empáticas – nossas e dos outros – já é um bom começo.

 

Hábito 2 – Dar o salto imaginativo• Preconceito

tia não é uma prática constante do ser humano, apesar de todos os benefícios já comprovados? Existem quatro barreiras sociais e políticas que atrapalham esse processo:

• Preconceito

• Autoridade

• Distância

• Negação

Todos nós nutrimos uma gama de preconceitos e pressupostos sobre o outro. Ao fazer isso, desumanizamos e anulamos a individualidade, gerando indiferença. Além de sermos preconceituosos, temos a tendência de obedecer à autoridade. A ideia de “cumprir ordens” já foi desculpa para os crimes mais bárbaros da história. Pessoas altamente empáticas são justamente aquelas que não hesitam em desafiar a autoridade quando se faz necessário.

A distância espacial é mais uma barreira ao florescimento da empatia. É mais difícil nos importarmos com quem está longe e com estranhos. A distância social e a distância temporal também atrapalham. Pensar naqueles diferentes de nós, ou naqueles que viverão daqui a cem anos é um exercício para poucos. Estreitar todas essas distâncias consiste num grande

desafio empático.

Por fim, a “cultura da negação” implica que “fazemos vista grossa” para a realidade, apesar de ela estar escancarada à nossa frente. Por vergonha, culpa, instinto de proteção, achamos melhor não ver. O primeiro passo é encarar essas quatro barreiras com coragem, para então conseguir superá-las.

É preciso humanizar o outro. Para isso, pode-se, por exemplo, imaginar como é a vida de todos aqueles com quem cruzamos em nosso dia a dia, ou a vida daqueles de quem nossas ações rotineiras dependem. Outra abordagem é jogar “jogos de personagem”, imaginando diferentes pessoas sob uma ótica mais humana, pondo abaixo os estereótipos, para abrir novas possibilidades de relação.

Descobrir o que temos em comum mesmo que seja com um estranho é mais uma forma de nos conectarmos com as emoções do outro. A dor e o sofrimento, por exemplo, são capazes de nos fazer transpor as divisões sociais e desenvolver relações empáticas. Se a Regra de Ouro diz: “Trate os outros como gostaria de ser tratado”, ela não dá conta de situações em que a cultura e a visão de mundo do outro divergem muito das nossas. Seria preciso ir mais além, adotando a Regra de Platina: “Trate os outros como eles gostariam que você os tratasse.”

 

Hábito 3 – Buscar aventuras experienciais

Quem tem disposição para mergulhar em experiências empáticas acaba conseguindo se pôr no lugar do outro com mais facilidade. Claro, é algo mais difícil do que simplesmente ter uma conversa ou assistir a um filme, mas seu potencial é incrível A “imersão, por exemplo, pode ser vista como a empatia sob disfarce. Há inúmeros exemplos ao longo da história, passando por São Francisco de Assis e George Orwell, para mencionar apenas dois empatistas famosos. Trata-se de tentativas de transpor barreiras de classe, de raça, entre outras, desmascarando iniquidades sociais e funcionando como denúncia. A grande diferença é que esse tipo de denúncia se baseia na experiência e não em suposições ou teorias.

A “exploração” do mundo sob a forma de viagens também pode ampliar a visão empática. Porém, não basta viajar: é preciso ter em mente um projeto claro, que contribua para ampliar a visão de mundo do viajante.

Por fim, a empatia experiencial também se desenvolve por meio da “cooperação”. Trabalhar em conjunto, com objetivos comuns e compartilhando experiências ajuda na fusão empática.

Em suma, deixe de lado os manuais e parta para as aventuras experienciais.

 

Hábito 4 – Praticar a arte da conversação

Estamos em meio a uma crise da conversação: falta qualidade às nossas conversas e proliferam-

se as conversas superficiais, em decorrência das novas tecnologias. Mas é justamente a conversa que nos ajuda a penetrar na escuridão do outro; conversa e empatia caminham lado a lado. Pessoas empáticas costumam apresentar seis características em suas conversas: curiosidade por estranhos, escuta radical, retirada da própria máscara, preocupação com o outro, espírito criativo e pura coragem.

A curiosidade por estranhos deveria ser encarada como virtude suprema, pois nos possibilita descobrir quem são esses estranhos e como enxergam o mundo. Para que as conversas

sejam verdadeiramente ricas, deve-se ultrapassar as trivialidades e ir a fundo nos temas importantes. Ouvir o outro com atenção, não interromper seu pensamento, evitar preencher os silêncios e estabelecer um diálogo de mão dupla, em vez de uma entrevista, são dicas boas. Além da curiosidade por estranhos, pessoas extremamente empáticas sabem ouvir:

apresentam “escuta radical”. Contudo, apenas escutar não basta. Para que a empatia se desenvolva, é necessário que caiam nossas máscaras. A empatia se faz na troca: ao se abrir com o outro, para que ele se sinta à vontade para se abrir também. Portanto, a conversação precisa ser uma via de mão dupla.

Existe um novo movimento no mundo dos negócios, que vem começando a valorizar mais e mais a inteligência emocional, a abertura e a sensibilidade. Afinal, as organizações são redes de relações humanas. Outro ponto fundamental das conversas empáticas é a preocupação com o outro. Abordagens autocentradas, utilitárias e instrumentais estão mais para o “marketing da empatia”, uma ideia a serviço das vendas. Agora, quando as conversas são pautadas pela preocupação verdadeira com o outro, a empatia floresce de forma genuína.

Além de se preocuparem com o outro, pessoas extremamente empáticas inserem criatividade em suas conversas. Ultrapassam a superficialidade, adotando diálogos significativos e profundos. Por fim, a coragem faz com que tenhamos conversas difíceis, mas necessárias.

Assim, a empatia pode surgir em contextos complexos, transformando vidas e colaborando para mudanças sociais.


Hábito 5 – Viajar em sua poltrona

A arte cse dizer que a arte ativa nosso ego empático, com chances de acarretar mudanças reais no dia a dia. Essa “empatia de poltrona” também abrange o mundo digital.

Inúmeros filmes e livros ultrapassam as fronteiras das telas e das páginas impressas, podendo trazer à tona o Homo empathicus que habita em nós. São oportunidades de entrar em contato com realidades que talvez jamais conhecêssemos por meio de experiências diretas.

Assim, a literatura e o cinema, por exemplo, podem servir de veículos para que se dê a transformação empática, por meio da adoção de perspectiva. A fotografia também tem um imenso potencial político e educativo.

Sobre as redes digitais, é verdade que elas nos conectam instantaneamente a todos os cantos do mundo, proporcionando interações de mão dupla, mas é preciso usá-las com sabedoria, pois o efeito pode ser justamente o contrário: esse tipo de mídia traz ao mesmo tempo oportunidades para a empatia e ameaças a ela. Se por um lado há um estímulo a superficialidade, ao narcisismo e ao cyberbullying – entre outros pontos negativos sob o aspecto da empatia – vemos surgir, por outro, iniciativas que ajudam a criar empatia de massa e propiciar mudanças políticas relevantes, como foi o caso da Primavera Árabe e do movimento Occupy.

Porém, nada disso dispensa o encontro face a face, real, o ativismo autêntico.onsegue nos transportar para vidas muito diferentes da que levamos. Palavras e imagens têm grande potencial de gerar empatia, apesar de oferecerem experiências “de segunda mão”. Assim, pode-

 

Hábito 6 – Inspirar uma revolução

A empatia precisa sair do âmbito da vida privada e ganhar também a vida pública. É possível

criar ondas de empatia coletiva, capazes de transformar a história. Pobreza, violência, desigualdade e degradação ambiental são alguns dos problemas atuais que podem ganhar muito com a criação de uma cultura da empatia.

Na história moderna do Ocidente, destacam-se três ondas de empatia. A primeira ocorreu no século XVIII, quando despontaram na Europa as organizações humanitárias para combater as inúmeras atrocidades e violências cotidianas. A segunda onda ocorreu na esteira da Segunda Guerra Mundial, quando o direito das minorias étnicas e religiosas tornou-se uma questão. Além disso, a partir dos anos 1950, com o advento da televisão, as imagens da pobreza, da guerra e da miséria começaram a invadir os lares, sensibilizando o mundo todo.

A terceira onda de empatia começou nos anos 1990 e ainda está em curso. Entre outros  desdobramentos, ela abrange a ideia de que as crianças devem aprender sobre empatia desde 

cedo, de que a empatia pode ajudar na solução de conflitos e também no enfrentamento das questões climáticas. A grande revolução acontecerá nas relações pessoais, e a empatia é um importante instrumento para isso. Ainda há um longo caminho pela frente: despertarempatia pelas gerações futuras parece um dos maiores desafios. O conceito de empatia nunca foi tão popular: cabe a nós, agora, encontrar formas de expandi-lo ainda mais.

Roman Krznaric é historiador, com PhD em sociologia política, e fundador da The School of Life. Conselheiro de diversas entidades, como a Oxfam e as Nações Unidas, teve seu nome listado pelo The Observer como um dos mais influentes pensadores da Grã-Bretanha dedicado ao tema dos estilos de vida. Com livros publicados em mais de vinte idiomas, Krznaric dá palestras e workshops em todo o mundo.

Fonte: getAbstract © 2017

Avenida Osvaldo Reis, 3281 - Sala 1108

88306-773 - Praia Brava Itajai SC
© 2014 Zuni-Tec Tecnologias - Todos os direitos reservados

47 3264.2000 | 9 9914.5382